Pele da Minha Pele | Estória de Outubro


Lembro-me de cada segundo do nascimento da Maria, e cada segundo desde esse dia. Lembro-me do cheiro de algodão, do seu calor contra o meu peito. Maria tinha o cabelo encaracolado, parecia cobre; a pele dela parecia caramelo. Maria era a vitória contre uma sociedade que antes me rejeitara. Maria. Menina linda, generosa, obediente, alegria dos pais dela.
Até hoje.

Estou furiosa. Aperto os punhos e bato as minhas pernas, esperando, em vão, poder me calmar. Mas é impossível. Não consigo. Depois dessa humiliação? Impossível!
Eu e Maria estávamos entusiastas com a idea de mudar de casa, com essa nova vida. Mas essa cena, a frente do novo liceu... Ela conversava com os novos colegas. Aproximei-me lentamente para não me impôr, mas foi o suficiente para ouvir as palavras dela. Palavras que até agora me enojam, que me dão raiva. Não, raiva não. Estou triste. Profundamente triste pela luz dos meus dias, pelo fruto do meu ventre.

Maria não olha para mim. Os olhos baixos, ela olha para os sapatos sem dizer uma palavra. É orgulhosa demain para admitir que ela cometeu um erro. Ela não foi educada dessa maneira, se o pai dela sabe...

— Estás feliz? — pergunto.

Maria não responde.

— Maria, olha para mim.

O tom da minha voz fá-la reagir. Eu não queria gritar, mas tenho tanta raiva, tanta pena! Maria levanta a cabeça, mas não consegue olhar-me nos olhos.

— Tens vergonha de mim? — pergunto com mais calma. — Sou a tua mãe. E isso não vai mudar nunca. Tens vergonha de ser minha filha?

Essa pergunta dói-me mais a mim que a ela, é óbvio. É como se uma faca s’enfiasse no meu pai. É doloroso. E a Maria continua sem falar.

— Deram-te uma língua, então fala. Utilisa o teu direito a fala para algo de útil e responde-me.
— Não, mãe, não tenho vergonha.
— Então explica-me. Como tornei-me na tua... empregada? É porque sou negra? Não é porque saíste mais clara do meu ventre que não tens sangue negro nas tuas veias. Que queiras ou não, eu sou negra e sempre serei a tua mãe. E sempre serás minhas filha.

Maria continua sem responder.

— Tenho pena ter ouvido isso... Pena que possas dizer aos teus amigos que sou a tua empregada. Eu amei-te desde o dia que foste concebida, carreguei no meiu coração durante nove meses. Amei-te do dia em que nasceste e eras tão pequena nos braços do teu pai. Amei-te quando te transformaste na criança mais linda do mundo. Amei-te doente, amei-te triste, amei-te cansada, amei-te quando tinhas os dentes a nascer. Amei-te quando disseste as tuas primeiras palavras, quando fizeste os teus primeiros passos, quando começaste a comer sozinha. Amei-te quand estavas feliz. Amei-te quando te deixei pela primeira vez na escola e que correste até mim, pedindo-me que ficasse contigo porque era a tua mamã. Amei-te quando contaste que tinhas muitos amigos novos. Amei-te quando deste o teu primeiro beijo. Amei-te quando nos apresentaste o teu primeiro namorado. Amei-te quando aprendeste a cozinhar e quase queimaste a casa. Amei-te porque eras a minha filha. Pouco importam os problemas, os choros, as lágrimas. Amei-te cada dia da tua vida. E não te amarei menos hoje porque vais cometer erros a tua vida toda e porque sou a tua mãe. Tenho pena que te envergonhes de mom. Deverias aceitar-me como sou. Não posso e não vou clarear a minha pele para não te envergonhar. Tens de aprender que vieste de dois mundos diferentes, mas esses dois mundos amam-te da mesma maneira.

Maria baixa os olhos carregados de lágrimas.

— Desculpa, mãe. Não sei porque disse isso.

Olho para outro lado.

— O teu pai não precisa de saber isso.

Essa ideia põe-me doente.

— Imagino que tenhas deveres?

Ela faz sim com a cabeça.

— Então vai.

Maria apanha a mochila e está quase a desaparecer do corredor quando volta.

— Sim? — pergunto.
— Desculpa, mãe. Não queria magoar. Fui estúpida. Desculpa.
— Lembra-te que és minha filha, e sempre o serás.

Ela faz sim com a cabeça, e vai para o quarto dela. As lágrimas escorrem-me pelo rosto. Sento-me a mesa e observo as minhas mãos negras. Estas mãos que seguraram a minha filha pequena, que a lavaram, que a mudaram, que a vestiram. Estas mõs que enxugaram as suas lágrimas de dor, de pena, de coração partido. Pouco importa o que a Maria pensa neste momento. Ela é a carne da minha carne.

A pele da minha pele.

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