Meu Amor | Estória de Março


Publicado no livro Pour une poignées de rêves pela editora L'ivre-Book (2013)


MEU AMOR

Por Jo Ann von Haff



Meu amor,
Antes que eu chegue, antes de me apresentar aos teus, não esqueças. Não digas quem sou, que sou esta rapariga, não fales do meu olhar, nem do meu sorriso. Não digas de onde venho, onde esto, para onde vou. Não contes os meus sonhos, os meus projetos, as minhas ambições. Não contes o meu percurso, o meu caminho, a minha iniciação. Não digas o que faz o meu pai, o que faz a minha mãe. Não digas o que fazem os meus irmãos, o que fazem as minhas irmãs. Não digas o quanto sou apegadas aos meus. Não digas o quanto sou devota à minha terra.

Meu amor,
Antes que eu chegue, antes de me apresentar aos teus, não esqueças. Não digas a minha altura e o meu peso. Não digas as minhas qualidades e os meus defeitos. Não digas as minhas forças e as minhas fraquezas. Não digas os meus interesses, as minhas paixões e os meus passatempos. Não digas que sou inteligente… ou não. Não digas que sou cultivada… ou não. Não digas que sou sociável… ou não. Não digas que sou normal… ou não.

Meu amor,
Não, não digas nada. Quero que me dispas de tudo o que sou, que esqueças o que mais gostas em mim. Quero estar longe de toda subjectividade. Deshumaniza-me. Faz de mim outra pessoa. Faz de mim um objecto, um ecrã, um espelho. Transparente. Dessa forma, não haverá surpresas, não haverá incómodo. Nada será negativo. A descoberta será mais forte, mais rica.

Meu amor,
Antes que eu chegue, antes de me apresentar aos teus, esquece quem sou. Para ti, para mim. Olha, vou chegar. Não esqueças. Antes que eu chegue, antes de me apresentar aos teus, para evitar toda surpresa menos boa, não digas quem sou.

Diz-lhes o que sou.

Sou negra.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Inscreve-te às Cartas de Sigmund

* indicates required