Bicho do Mato | Estória de Janeiro

© Jo Ann von Haff, 2002

Traduzido para o italiano por Cristina Galhardo, publicado pela revista Buràn (2007)
Traduzido para francês, publicado no livro Pour une poignées de rêves pela editora L'ivre-Book (2013)

BICHO DO MATO

por Jo Ann von Haff



Enquanto olhava pela janela, a minha mente disparou. O avião iria aterrar em breve no Luena, na província do Moxico. Olhava para baixo e esquecia as vertigens. A minha vida estava a quilómetros de distância... Talvez fosse esse o problema. Eu via a minha vida como se fosse o Luena, uma cidade destruída pela guerra e pelo abandono dos que a governam, que com todas as riquezas naturais à volta, não deixa de chorar e sofrer pelo que não consegue ter.

A minha vida era um caco.

Quando finalmente o avião aterrou e que com a minha mochila às costas entrei no carro que me esperava, dei por mim a comparar Luanda e Luena, sem bem saber porquê, pois eu não suportava Luanda, nem pouco, nem mais ou menos.

A verdade era que, mesmo tendo nascido lá, vivido lá, crescido lá, estudado lá, trabalhado lá, Luanda não deixava de ser um labirinto. Um labirinto onde eu não tinha a mesma sorte que Teseu, não podia escapar-me do Minotauro, que todos os dias comia um pouco de mim. Esse Minotauro que era a minha angústia, o meu medo constante do amanhã.

Amanhã.

Parecia palavra de outro mundo.


Vim para o Luena por razões puramente egoístas. Não tenho missão alguma, não tenho trabalho... Vim para descansar o meu cérebro de qualquer obra de qualquer importância. Não queria ver nada nem ninguém. Bem. Isso é mentira. Queria ver coisas, sim. Queria ver a natureza como era e ainda é depois das queimadas. Queria ver essas florzinhas azuis que crescem na terra negra, no verde que brilha. Queria repousar os meus olhos das agressões citadinas e reposar.

E foi o que eu fiz. Ou pensei fazer.

Enquanto caminhava pelas margens do rio, do meio do nada, apareceu um rapaz. Ele olhou para mim sem medo. Quase sem interesse, sem curiosidade. Eu, pelo contrário, observava o rosto dele. Era um rosto velho, cansado... e no entanto, eu sabia instintivamente que ele era jovem.

Estávamos os dois frente a frente, num combate silencioso. Sabiámos de antemão que éramos de mundos diferentes, opostos. Sabíamos que não tínhamos nada em comum, não precisávamos de palavras para o sentir.

— Tás na minha zona, disse ele.
— Desculpa?
— Tás na minha zona. Ist’ aqui é meu.
— Não sabia.
— Agora sabes.
— Quem és tu?
— Num t’interessa.
— Como vou saber que esta zona é tua?

Claro que não deveria ter perguntado. No meio do nada, sozinha com um jovem com cara de velho cansado, que queria eu que acontecesse? Mas eu não sabia o que fazia. Apenas agia como sentia.

Olhei para ele. Eu, filha da cidade. Ele, bicho do mato.

Ao longe, ouvia-se música dum carro que passava. Um carro de um estrangeiro a trabalhar para uma ONG de certeza. Não havia mais ninguém, além das ONGs e do clero a terem carros no Moxico. Mais um chindele. Eu era mestiça, mas era chindele também.

O rapaz começou a dançar kizomba com a música longínqua. Ele parecia em transe, dançando lentamente, os olhos fechados. Eu não conseguia descolar os olhos da cara dele. Ele tinha saído do nada. A roupa dele estava suja, rota, a caír aos bocados. Os cabelos sujos, os olhos vermelhos, as unhas pretas...

Ele abriu os olhos e continuou a dançar, olhando para mim. Sem provocação. Apenas dançava. Como se o mundo fosse acabar naquele momento e não haveria nada para nos salvar.

— Que idade tens?

Ele não parou, mas parecia pensar.

— D’zoito.
— Onde aprendeste a dançar?

Ele fez uma pirueta e voltou à mesma, movendo as ancas.

— No mato.

O meu coração bateu mais depressa. Eu já sabia quem ele era. Mas agora, tinha a confirmação. Não era preciso muito. Eu era da cidade, de Luanda, mas casos como o dele, já tinha visto. Afinal, eu também era uma chindele de uma ONG...

— Mataste?

Ele não disse nada. Ele dançou mais um pouco.

De repente, ele parou. Abatido.

— Sim.
— Quantos?
— Muitos.

Desta vez, fui eu que guardei o silêncio.

A música tinha parado e a nossa volta, apenas o eco dos nossos corações. O rosto dele estava tão triste, tão estragado pelo tempo e por aquilo que ele tinha visto... e feito.

«Muitos...»

— Epa, podes fica, disse ele depois de um momento. Fica bem.

Ele foi-se embora, no meio do mato, onde não se via mais nada, mesmo depois das queimadas. A vegetação era tão densa que era impossível ver além de três metros. E ele fora além desses três metros.

Ele tinha voltado a ser o bicho do mato.

E eu não sabia o caminho de volta para a cidade...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Inscreve-te às Cartas de Sigmund

* indicates required